Como estudar a doutrina espírita?

Ninguém, pois, se iluda: o estudo do Espiritismo é imenso; interessa a todas as questões da metafísica e da ordem social; é um mundo que se abre diante de nós. Será de admirar que o efetuá-lo demande tempo, muito tempo mesmo?
(Allan Kardec, O Livro dos espíritos ¹, introdução).
 
Apropriar-se dos conhecimentos elaborados e difundidos pela humanidade, sejam quais forem, implica dedicação, num esforço contínuo de cada um. Implica também uma troca, seja num contexto pessoal ou por meio de materiais, como livros, vídeos, apostilas, etc.

Em relação às questões trazidas pela Doutrina Espírita não é diferente. Kardec, na Introdução do Livro dos Espíritos, afirmou: “estes estudos requerem atenção demorada, observação profunda e, sobretudo, como aliás o exigem todas as ciências humanas, continuidade e perseverança. Anos são precisos para forma-se um médico medíocre e três quartas partes da vida para chegar-se a ser um sábio. Como pretender-se em algumas horas adquirir a Ciência do Infinito?” ¹ 

Por que será que atribuímos mais importância aos estudos das coisas materiais que aos estudos da Doutrina? Ficamos às vezes horas estudando para uma prova ou exame, ou ainda tentando entender o funcionamento de um eletrodoméstico de nossa casa, e tão pouco nos dedicamos ao estudo da doutrina, que poderia ampliar nosso entendimento sobre o funcionamento das leis divinas!
 
Claro que não são coisas completamente diferentes, mas nem sempre buscamos estabelecer as relações entre elas, o que nos possibilitaria novas descobertas. Novamente caímos na opção de avançar mais no aspecto intelectual, relegando o aspecto moral para um segundo plano, esquecendo-nos que ambos os aspectos se complementam. Kardec argumenta, falando de sua expectativa sobre o objetivo do Livro dos Espíritos: “O de guiar os homens que desejem esclarecer-se, mostrando-lhes, nestes estudos, um fim grande e sublime: o do progresso individual e social e o de lhes indicar o caminho que conduz a esse fim.” ¹
 
Mas, então, como estudar a Doutrina Espírita? Basta pegar um livro e abrir ao acaso, lendo uma mensagem ou uma parte? Cada dia, dependendo da minha vontade, pego um livro diferente para ter mais opções de temas? Será que ao estudar, dá na mesma ler livros de mensagens, ou romances, em vez das obras básicas, por exemplo? Kardec responde também a essas questões: “Acrescentemos que o estudo de uma doutrina, qual a Doutrina Espírita, que nos lança de súbito numa ordem de coisas tão nova quão grande, só pode ser feito com utilidade por homens sérios, perseverantes, livres de prevenções e animados de firme e sincera vontade de chegar a um resultado. (…) O que caracteriza um estudo sério é a continuidade que se lhe dá.” ¹
 
E continua: “Quem deseje tornar-se versado numa ciência tem que a estudar metodicamente, começando pelo princípio e acompanhando o encadeamento e o desenvolvimento das idéias. Que adiantará aquele que, ao acaso, dirigir a um sábio perguntas acerca de uma ciência cujas primeiras palavras ignore? Poderá o próprio sábio, por maior que seja a sua boa-vontade, dar-lhe resposta satisfatória? A resposta isolada, que der, será forçosamente incompleta e quase sempre por isso mesmo, ininteligível, ou parecerá absurda e contraditória.”
 
É por isso que às vezes temos a sensação de que nos falta algum pedacinho para compreendermos melhor este ou aquele conceito. Assistir palestras é muito bom, importante para chamar nossa atenção para diferentes aspectos. Mas elas não substituem um estudo organizado, sistemático, para quem quer se apropriar do corpo teórico de conhecimentos estabelecido pela Doutrina. Em Obras Póstumas, no Projeto – 1868, Kardec afirma: “Dois elementos devem contribuir para o progresso do espiritismo: o estabelecimento teórico da doutrina e os meios de popularizá-la.” ²
 
Volta a questão. Como fazer então para estudar a Doutrina Espírita? A partir das dicas de Kardec, um primeiro passo seria esquematizar o próprio tempo, para garantir continuidade. Em seguida, organizar o material, que poderia ter o próprio Livro dos Espíritos como espinha dorsal, complementado, em cada tema ou assunto, pelas outras obras básicas e também por obras subsidiárias, como as de Emmanuel e André Luiz, por exemplo. Já há alguns textos que indicam onde encontrar, cada assunto, em determinados livros espíritas. São os guias de fontes espíritas ou vade-mécuns.
 
Uma outra possibilidade, mais rica e produtiva, é participar de grupos de estudo voltados para esse fim. Desde com método e organização, a troca traz bons frutos, além do que o compromisso compartilhado com outros nos torna mais persistentes.
 
No movimento espírita muitas são as possibilidades de tais grupos, e muitas casas espíritas já desenvolvem esse trabalho, assim como já existem propostas organizadas pelos órgãos de unificação para este fim.
 
Referências Bibliográficas:
1. Allan Kardec, O Livro dos Espíritos. Introdução
2. Allan Kardec, Obras Póstumas, Projeto 1868.
 
JORNAL VERDADE E LUZ / Educação / julho / 2005
Marlene Fagundes Carvalho Gonçalves
E-mail: verdadeeluz.marlene@bol.com.br