Kardec e a qualidade das comunicações mediúnicas

De dois anos para cá a Sociedade cresceu em crédito e em importância; mas os seus progressos são assinalados pela natureza das comunicações que recebe dos Espíritos. Com efeito, desde algum tempo essas comunicações adquiriram proporções e desenvolvimento que superaram de muito a nossa expectativa. Já não são, como outrora, pequenos fragmentos de moral banal, mas dissertações, nas quais as mais altas questões de filosofia são tratadas com uma amplidão e uma profundidade que as convertem em verdadeiros discursos. Foi o que observaram, em sua maioria, os leitores da Revista.

Sinto-me feliz ao assinalar um outro progresso no que concerne aos médiuns. Jamais, em nenhuma outra época, os vimos tantos, participando dos nossos trabalhos, pois chegamos a ter quatorze comunicações na mesma sessão. Mas, o que é mais precioso que a quantidade, é a qualidade, a julgar pela importância das instruções que nos são dadas. Nem todos apreciam a mediu-nidade do mesmo ponto de vista. Uns a avaliam pelo efeito: para estes os médiuns velozes são os mais notáveis e os melhores. Para nós, que antes de tudo buscamos a instrução, damos mais valor àquilo que satisfaz ao pensamento do que ao que regala os olhos. Assim, preferimos um médium útil, com o qual aprendemos alguma coisa, a um outro admirável, com quem nada aprendemos. Sob este ponto de vista não temos que nos lastimar e devemos agradecer aos Espíritos por terem cumprido a promessa que fizeram, de não nos deixar desprovidos. Querendo ampliar o seu círculo de ensino, deviam também multiplicar os instrumentos.

Há, porém, um ponto ainda mais importante, sem o qual tal ensino não teria produzido frutos, ou pouco teria produzido. Sabemos que os Espíritos estão longe de possuir a soberana ciência e que se podem enganar; que, por vezes, emitem idéias próprias, justas ou falsas; que os Espíritos superiores querem que o nosso julgamento se exercite em discernir o verdadeiro do falso, aquilo que é racional daquilo que é ilógico. É por isso que nada aceitamos de olhos fechados. Assim, não haveria ensino proveitoso sem discussão. Mas, como discutir comunicações com médiuns que não suportam a menor controvérsia, que se melindram com uma observação crítica, com uma simples observação, e acham mau que não se aplaudam as coisas que recebem, mesmo aquelas inçadas de grosseiras heresias científicas? Essa pretensão estaria deslocada se o que escrevem fosse produto de sua inteligência; é ridícula desde que eles não são mais que instrumentos passivos, pois se assemelham a um ator que ficaria ofuscado, se nós achássemos maus os versos que tem de declamar. Seu próprio Espírito não se pode chocar com uma crítica que não o atinge; então é o Espírito comunicante que se magoa e transmite ao médium a sua impressão.

Por isto o Espírito trai a sua influência, porque quer impor as suas idéias pela fé cega e não pelo raciocínio ou, o que dá no mesmo, porque só ele quer raciocinar. Disso resulta que o médium que se acha em tais disposições está sob o império de um Espírito que merece pouca confiança, desde que mostra mais orgulho que saber. Assim, sabemos que os Espíritos dessa categoria geralmente afastam seus médiuns dos centros onde não são aceitos sem reservas.

Esse capricho, em médiuns assim atingidos, é um grande obstáculo ao estudo. Se só buscássemos o efeito, isto seria sem importância; mas como buscamos a instrução, não podemos deixar de discutir, mesmo com o risco de desagradar aos médiuns. Assim, outrora alguns se retiraram, como o sabeis, por este motivo, embora não confessado e porque não tinham podido impor-se perante a Sociedade como médiuns exclusivos e intérpretes infalíveis das potências celestes. Aos seus olhos, os obsedados são aqueles que não se inclinam diante de suas comunicações.(1)

Pondo-se de lado o grau da faculdade, as qualidades de um bom médium são a modéstia, a simplicidade e o devotamento.

Deve oferecer seu concurso tendo em vista ser útil e não para satisfazer a sua vaidade. Não deve nunca ater-se às comunicações que recebe, pois, de outra forma, poderia fazer crer que nelas põe algo de seu, algo que tem interesse em defender. Deve aceitar a crítica, mesmo solicitá-la, e se submeter às advertências da maioria sem intenções calculadas. Se o que recebe é falso, mau, detestável, tudo isso é preciso que se lhe diga sem receio de feri-lo, e mesmo na certeza de que tal não ocorrerá. Eis os médiuns verdadeiramente úteis a um grupo e com os quais nunca teremos motivos de descontentamentos, pois que bem compreendem a doutrina.

São, igualmente esses que recebem as melhores comunicações, uma vez que não se deixam dominar pelos Espíritos orgulhosos. Os Espíritos mentirosos os receiam, pois que se reconhecem impotentes para deles abusar. Quanto aos outros, ou não compreendem a doutrina ou não a querem compreender.(2)

Alguns levam a sua susceptibilidade a ponto de se escandalizarem com a prioridade dada à leitura das comunicações recebidas por outros médiuns. Por que uma comunicação é preferida à sua? Compreende-se o mal-estar imposto por tal situação. Felizmente, no interesse da ciência espírita, nem todos são assim; e apresso-me em aproveitar a ocasião para, em nome da Sociedade, dirigir agradecimentos àqueles que hoje nos prestam seu concurso com tanto zelo quanto devotamento, sem calcular esforço nem tempo e que, não tomando partido por suas comunicações, são os primeiros a participar da controvérsia que podem suscitar.

Em resumo, senhores, só nos podemos felicitar pelo estado da Sociedade, do ponto de vista moral: não há quem não tenha observado uma notável diferença no espírito dominante, em relação ao que era no princípio; e cada um sente instintivamente a impressão, em muitos casos traduzida em fatos positivos. É incontestável que aí reina menos mal-estar e constrangimento, enquanto se faz sentir um sentimento de mútua benevolência. Parece que os Espíritos perturbadores, vendo a sua impotência para semear a desconfiança, tomaram o sábio partido de afastar-se.(3)

1. Texto extraído da Revista Espírita, junho de 1862, do discurso do Sr. Allan Kardec na abertura do ano social, a 1º de abril de 1862, ed. Edicel.
2. Parte do discurso pronunciado pelo Sr. Allan Kardec, nas reuniões gerais dos espíritas de Lyon e Bordeaux, extraída do livro Viagem Espírita em 1862, ed. O Clarim.
3. Texto extraído da Revista Espírita, junho de 1862, do discurso do Sr. Allan Kardec na abertura do ano social, a 1º de abril de 1862, ed. Edicel.

Matéria publicada no Jornal Mundo Espírita :: abril/2006